E vai rolar a festa

Brinque-Book faz a alegria da criançada com contação de histórias e presença de vários autores

*Matéria publicada na revista Vila Cultural edição 186 (Outubro/2019)

Laurabeatriz e Lalau. /Foto Divulgação Brinque-Book e Eve Dias

Blandina e Lollo, Laurabeatriz e Lalau, Patricia Auerbach, Silvana Rando e Jean-Claude são alguns dos autores com presença confirmada na festa que a Brinque-Book, a Escarlate e a Livraria da Vila fazem no sábado, dia 5 de outubro, na loja da Fradique, para celebrar a literatura e o Dia das Crianças, em 12 de outubro.

“Parece que acontece uma conexão imediata nessas situações, nos encontros com as crianças. Dia desses, numa visita escolar em que eu usava óculos arredondados, os alunos e os professores pediam, na hora das fotos, que eu permanecesse de óculos. E entendi que era como seu eu fosse o Gildo ou um dos meus personagens, que têm olhos redondos e mais juntos”, diz Silvana Rando. Leve e bem-humorada como os livros que cria, ela se diverte com essa confusão “criador-criatura”. Silvana aproveita a festa da Brinque-Book para autografar seu livro mais recente, A irmã do Gildo, em que mantém a graça, o carisma e o humor de personagens que os pequenos leitores adoram.

 

Patricia Auerbach./Foto divulgação Brinque-Book
Silvana Rando./Foto Divulgação Brinque-Book

A ideia da festa é repetir a experiência de leitura e diversão que a editora realizou com enorme sucesso no mesmo evento, há dois anos. A programação inclui contação de histórias, bate-papo e brincadeiras, entre outras atrações. Quem participar vai poder levar para casa marcadores de livros, brindes e uma foto de recordação. Além disso, todos os livros da Brinque-Book e da Escarlate têm 20% de desconto no dia da festa.

 

Lollo e Blandina Franco. /Foto Divulgação Brinque-Book

“As crianças enxergam o mundo e pensam sobre ele de uma maneira mais simples e menos complicada do que a gente. As coisas são mais verdadeiras. O desafio é o mesmo que sempre foi: falar com eles como eles falam e pensam, raciocinar como elas. Não adianta a gente escrever bonito se a forma for distante da linguagem delas. Elas não se interessam por pompa e circunstâncias, no geral crianças querem ser entendidas e gostam de entender o que estão lendo.”
Blandina Franco, escritora

“A gente gosta de contar as nossas histórias, é por isso que estamos juntos, essa é a razão da dupla. Mas quando percebemos que essas nossas histórias passam a ser de outras pessoas, de uma criança em Paraisópolis, ou numa escola no Rio Grande do Sul, ou do outro lado do mundo, isso muda tudo. A resposta das pessoas aos nossos livros faz uma diferença enorme na nossa motivação hoje.”
Lollo, ilustrador, parceiro de Blandina na vida e nos livros

 

O escritor e ilustrador Jean-Claude./Foto Divulgação Brinque-Book

Amor aos livros

Desde que começou a publicar, em 1990, o escritor e ilustrador Jean-Claude já fez mais de 30 livros, entre eles Adélia e Otávio não é um porco-espinho, pelos quais tem um carinho especial. Em 2017, ele foi finalista do Prêmio Jabuti, na categoria Melhor Livro Infantil, e ganhador na categoria Melhor Ilustração. Convidado da Festa da Brinque-Book, Jean-Claude teve recentemente um livro selecionado para constar no catálogo White Ravens da prestigiada Biblioteca Internacional da Juventude de Munique, na Alemanha. Vila Cultural conversou com o escritor, que optou por sair do Brasil.

 

 

Vila Cultural. De onde vem o seu interesse por livros para crianças?
Jean-Claude. Meu maior interesse é ajudar ou pelo menos tentar ajudar a criança a construir sua própria identidade. Uma identidade que vai ajudá-la a ler melhor o mundo externo. Há sofrimento e resistência em crescer e o autor de livros para infância não deve se ater em congelar a criança na infância para sempre. Peter Pan é divertido, mas é Wendy que vai se adaptar melhor ao mundo real. A infância é um paraíso que as crianças devem desfrutar ao máximo, mas ao autor de livros para infância cabe também a dura tarefa de ajudar a criança a ler o mundo dos adultos. Adultos que elas serão um dia. Infantil e infantilizado não
são sinônimos.

VC. O que, na sua percepção, mudou na vivência da infância e na relação das crianças com os livros nesses tempos digitais?
JC. Não acredito em mudanças com relação a isso. Os livros digitais são apenas ferramentas de leitura. O que importa para mim é fazer uma literatura para a infância de qualidade. Prefiro livros de verdade, que podem ser manuseados pela criança para deixar as marcas dela nesse contato. Folhas dobradas, riscos de canetinhas… Sou defensor ferrenho do livro-objeto porque é lindo e permeia a história humana de maneira definitiva.

VC. Qual o sentido do “ativismo ecológico” com os pequenos leitores?
JC. Meu primeiro intuito é desenvolver um trabalho de qualidade com meus livros, o segundo é manter a criança em contato constante com a natureza. Com os bichos, a fauna e a flora. Estamos vivendo a sexta extinção em massa da história deste pequeno e maravilhoso planeta. Faço o que posso nos meus livros para falar de bichos. No meu Instagram, destaco os animais em risco de extinção. Crianças devem tomar consciência do risco que correm de terem que viver num planeta sem diversidade ecológica. São elas que vão ter que enfrentar este desafio quando adultas. Já há formas de resistência espalhadas pelo mundo. E precisamos de uma verdadeira revolução para frear essa extinção em massa.

VC. Por que decidiu sair do Brasil neste momento?
JC. Por que é um movimento natural querer ter meus livros lidos por crianças de outras partes do mundo. Estou curioso agora para conversar com crianças do Canadá, onde meus livros estão sendo traduzidos. O Brasil vive um momento de atraso e a literatura para infância não pode ser censurada nem diminuída. Isso me deixa enfurecido. A criança não deve sofrer com a ignorância e a imbecilidade. A criança deve ser livre.

VC. O que muda na sua perspectiva criativa ao optar por mercados internacionais?
JC. Muita coisa. Este ano, por exemplo, vou ilustrar um livro sobre refugiados. Há assuntos que quero debater nos livros que não tive a possibilidade de fazê-lo ainda. A literatura fora do Brasil consegue ser mais abrangente. As crianças leem muito mais e já estão mais preparadas para desafios maiores. O Brasil não é um país leitor. Não há ênfase suficiente na leitura como há em países mais desenvolvidos. Quero poder falar de outras coisas e entender como esses mercados trabalham a literatura para a infância.

VC. O que define uma linguagem que seja universal ao falar com crianças?
JC. A criança é igual em todos os lugares. A diferença vem do repertório apreendido. Um repertório maior prepara as crianças para desafios maiores. Não sou um escritor de palavras, sou um escritor de imagens. Minhas imagens são linhas e texto. Há diversos profissionais que fazem livros para crianças. Há textos universais como Peter Pan, Alice, Pinóquio que não necessitam de imagens e as crianças têm a sorte e a necessidade de criar suas imagens mentais. Meu trabalho é mais de casamento entre a imagem e o texto. Se preciso eliminar texto em favor da imagem, não vejo problema algum. O contrário também. Não sou contra a redundância num livro, mas tento sempre criar um diálogo entre a imagem e o texto que traga mais riqueza ao todo.

VC. Por que, como já disse, Otávio e Adélia são livros pelos quais você tem um carinho tão especial?
JC. São livros que mudaram minha forma de escrever para as crianças, com mais minimalismo. Poucas cores, texto enxuto e imagens com um traço proeminente. Foram livros pensados para as crianças e não para mim. Muitos autores esquecem seu público e falam como adultos para as crianças e incluo alguns trabalhos meus anteriores neste engano. Esses dois livros são pensados para meu público. Exclusivamente para crianças. Otávio é um livro nonsense porque a criança gosta de coisas sem sentido, se diverte com uma história que não tem um sentido mastigado ou lógico. E Adélia é sobre a leitura, de como as crianças se apaixonam pela leitura.

VC. A que atribui o fato de seus livros encantarem tantos “adultos”?
JC. Isso me traz muitas interrogações, mas não me preocupo. Prefiro focar nos meus leitores reais. As crianças são meu público. Não tenho resposta pra isso. Meu intuito sempre é atender à demanda dos meus pequenos leitores.

VC. Em que projetos você trabalha atualmente?
JC. Estou trabalhando livros meus para publicar fora. Alguns sendo traduzidos. Adélia vai virar Adélie para as crianças canadenses e será publicado em outubro. Outros projetos meus que não encontraram sua casa no Brasil também estão saindo para mercados de fora. Tenho um em particular que fala de um assunto muito delicado e triste que jamais seria publicado no Brasil e aqui achou sua casa.

 

FESTA BRINQUE-BOOK

O que é: Festa literária com contação de histórias, sessão de autógrafos, brincadeiras e presença de vários autores
Loja: Fradique
Quando: dia 5 de outubro, sábado, das 13h30 às 18h